8.10.05

O Julgamento - II

A elfa leu o bilhete e pareceu extremamente preocupada.

— Digníssimos senhores, acabo de receber um comunicado e sugiro que de agora em diante a reunião prossiga sem a presença do réu— pediu.

Luntor, que estivera em silêncio desde seu pronunciamento inicial, ouvindo a todos com atenção e visível contrariedade, mostrou toda a sua irritação e respondeu com voz furiosa:

— Mais um ultraje! Como nobre, não deveria ter de aceitar um circo grotesco como este. Mas serei benevolente e sensato. Caso os senhores me permitam, retiro-me agora para deixar que cochichem com maior paz de espírito.

Harbeus e Maryk acenaram com a cabeça, autorizando a saída de Luntor, que deixou a sala com paços pesados. Todos os olhos se voltaram então, para Lyla, que relia o recado. Finalmente, quebroiu o silêncio.

— Se esse verrogari não porta item mágico algum, não podemos deixar de pensar que algum de seus companheiros possa portar e que o tenha ajudado na batalha, mesmo à distância. Sugiro desclassificá-lo do torneio e examinarmos todos os pertences da comitiva verrogari.

Cícero, calado até então, foi o primeiro a se entusiasmar com a proposta. E disse:

— Senhores, se permitem expor minha opinião, o que está claro aqui é que toda comitiva verrogar está aqui por motivos pessoais e impuros, que nada têm a ver com o objetivo do torneio, e que vêm a macular a sua pureza. Assim, é certo que são passíveis de punição, assim que demonstrada sua culpa. O certo seria desclassificar o participante suspeito e mantê-lo no calabouço até tudo ser apurado, seja sua culpa ou inocência, dada a gravidade dos fatos. Proponho também que todos os verrogaris sejam interrogados com o máximo rigor por uma guarda ou equipe especial do palácio, pois ao que parece a vítima só será salva se descobrirmos a origem do ferimento, o que pode levar um tempo que não temos. Por isso, quanto antes eles falarem, melhor para ela.

Harbeus ouviu atentamente o que Lyla e Cícero disseram, e respondeu:

— O que Lyla afirma é uma verdade e Cícero apontou para uma possível solução para o caso em questão. Mas devemos ser cautelosos. Se levarmos isto adiante, com uma grande investigação, e não pudermos comprovar nenhuma de nossas suspeitas, podemos ser desacreditados. Para facilitar o andamento do torneio, mandei um de meus aprendizes ao templo de Crisagom da Terra Alta para chamar Lerfoat Instel, o maior sacerdote de Crisagom na região norte do mundo conhecido. Há muito ele se refugiou em um pequeno templo nas montanhas próximas a Runa. Se o que afeta a jovem Esliel supera a nossa capacidade de compreensão, tenho certeza de que ele poderá nos dar alguma resposta mais precisa. Em breve eles devem estar aqui, afinal, meu aprendiz já partiu há algumas horas, assim que soube das tentativas frustradas de Maryk de curar a meio-elfa. Ele poderá nos indicar o que houve. Porém, eu acredito que tenhamos em nossas mãos razões suficientes, como bem demonstrou Cambaxirra, para desclassificar Luntor deste Torneio. Meu voto vai neste sentido. O que você acha, Maryk?

O sacerdote ficou pensativo por alguns instantes. E, quando falou, foi para discordar de Harbeus.

— Se Luntor está ou não envolvido no mal mágico se abateu sobre Esliel, somente Lerfoat Instel poderá responder
com alguma certeza — argumentou. — Porém, ele não chegará agora, quando temos que tomar uma decisão. Para além disto, vejo o que ocorreu como um acidente normal de combate. Algo que, se não fosse por uma imposibilidade mágica, seria resolvido com qualquer um de nossos milagres. Pessoalmente, não considero que Luntor tenha honrado a intenção deste torneio, mas não tenho certeza de que desclassificá-lo seja a melhor saída. Mas apoio sua opinião, a princípio. Vamos chamá-lo de volta e anunciar a decisão. Peço agora que Adam, Cícero e Cambaxirra deixem o recinto.

Saímos e vimos quando Luntor entrou. Poucos minutos depois, nós ouvimos sair da sala o grito de "INFÂMIA!" na sua inconfundível voz grave e carregada de ódio. Alguns minutos depois, saiu de lá com passos firmes, em velocidade, rumo aos seus aposentos, tão irritado que sequer notou nossa presença.

Em seguida, Harbeus mandou nos chamar novamente. Em seu rosto estava estampada a tristeza. E disse a Adam:

— Por caminhos da injustiça, Crisagom reservou a você a missão de restabelecer o equilíbrio da justiça. Por motivos que escapam a qualquer explicação neste momento, Luntor competirá amanhã, lutando contra você. Espero que a honra guie sua espada e você possa fazer aquilo de que fomos incapazes nesta sala. Agora, tenho que ir ver Esliel. Espero que Lerfoat possa fazer também o que não conseguimos.

— Não consigo entender por que ele será autorizado a lutar, uma vez que tínhamos decidido o contrário. Mas não vou contestar a decisão dos senhores. Se esta é a palavra final, eu me despeço e vou me preparar para a luta — ele respondeu, depois de olhar fixamente os juízes por alguns segundos.

Saímos os três da sala, entre revoltados e estupefatos.

— Você será a espada da justiça, Adam — disse eu, tentando confortá-lo e animá-lo para o combate do dia seguinte. Não tenho certeza se me ouviu. Comentou alguma coisa sobre procurar o Duque do Lago Escarpado e afastou-se de nós, enquanto Cícero dizia:

— Amigos, ao que parece amanhã nossos problemas serão ainda maiores. Vou tentar tomar uma providência. Talvez pareça uma idiotice e peço que não me sigam, mas vou investigar mais a fundo o quanto o guerreiro é inocente...

O Julgamento - I

Chegamos à sala onde Luntor seria julgado. Noutra situação, talvez eu fizesse uma piada sobre a enorme cadeira onde se encontrava sentado o pequenino Harbeus. Mas o momento pedia seriedade. Lyla, a maga, também entrou e na porta um guarda entregou-lhe um cetro mágico, com o qual ela poderia analisar a natureza da arma e dos itens de Luntor.

Pouco depois de todos entrarmos e nos acomodarmos ao redor de uma mesa circular vazada, entrou Luntor. Ele carregava consigo a sua arma e os itens que usara no combate e os entregou a Lyla, antes de se sentar na cadeira, no centro da sala.

Harbeus levantou-se e iniciou o julgamento:

— Luntor, você está sendo acusado de violar as regras do torneio, atacando de forma violenta uma participante já rendida. Além de tudo, tal atitude foi vista por muitos como uma afronta ao espírito dos motivos deste festival, que é a comemoração de uma união matrimonial. Estão aqui os sacerdotes organizadores do torneio; Lyla, uma observadora do torneio de guerreiros, indicada pelo Rei de Calco; e o lutador que seria seu próximo adversário. Antes de tudo, há algo que gostaria de dizer em sua defesa?

Luntor se levantou e, com um movimento de cabeça, observou a todos na sala, inclusive Lyla, que, de olhos fechados, segurava a espada que ferira Esliel e procurava se concentrar. E respondeu:

— Não, caro sacerdote, não tenho nada a dizer, pois não vejo do que sou culpado. Desde cedo aprendi que, pelos ensinamentos de Crezir, os combates servem para diferenciar os fortes dos fracos, os vencedores dos perdedores, e, em última instância, os justos dos não-justos. Além disso, todo combate envolve inevitavelmente sangue. Muito me estranharam estas regras de torneio. Um combate sem mortes? Seria o mesmo que fazer um ferimento sem dor ou sangue. Uma tentativa de divertimento pueril que só poderia agradar a meninas de almas pouco acostumadas às batalhas, que são o objetivo de qualquer luta. Se a mestiça se feriu durante a luta, nada posso fazer. Foi um risco que ela aceitou quando decidiu partiipar de um duelo de armas. Como nobre do jovem, porém crescente, Império de Verrrogar, sinto-me contrangido de ter que explanar isto a tão sábios homens. Além disso, sou posto em dúvida por alguém que sequer é humana, ou seja, que mal compreende nossas paixões, e que agora mexe em meus pertences utilizando artifícios cujo propósito é estranho para mim. Mas que seja, sujeito-me a isso, para que Crisagom prove o quão injusta é esta solenidade circense.

— Concedo a palavra a todos, então — limitou-se a dizer Harbeus, pedindo que Lyla revelasse os resultados de sua análise.

— Não encontrei nenhum vestígio de magia nestes itens — afirmou a elfa, para minha surpresa. — Para confirmar que não foi usada nenhuma magia, preciso averiguar todos os pertences, incluindo roupas, anel, cordão ou qualquer outra coisa que o guerreiro esteja portando. No entanto, caso não seja encontrado nada, não quer dizer que ele não tenha usado de meios contrários às regras, pois neste ínterim é possível que tenha deixado o item com seus amigos ou em seu dormitório.

Lyla, que estava de olhos fechados até então, tornou a abri-los, e os moveu fria e compenetradamente, como num estado de transe, acrescentando:

— No entanto, sinto que sua espada está marcada pelo ódio e pelo desejo de vingança.

São engraçados os magos: gabam-se tanto de seu conhecimento mas na hora da verdade não revelam coisa alguma que eu já não soubesse. Os olhos de Lyla voltaram ao normal, e ela completou:

— Se ficar confirmado que não violou a regra da magia, os sentimentos marcados em sua espada apontam que ela foi usada intencionalmente para dar vazão ao ódio e a vingança. E é muito fácil entender o motivo de tais sentimentos, pois você mesmo já explicou o motivo deles e isto já é o suficiente para que o julgamento prossiga. No entanto, se além disso estiver portando algum item mágico, será julgado por duas violações.

Apos dizer isso, avançou em direção ao guerreiro de Verrogar para analisar todos os itens em seu corpo. Mas o resultado foi novamente negativo.

Aquilo estava me incomodando. Será que precisavam ainda de algum tipo de prova? Bem, se a magia de Lyla não encontrava nada, era hora da minha eloqüência. Sendo assim, pronunciei o meu libelo:

— Senhoras, senhores: não é na nobre arte da magia que se deve procurar este crime. A feitiçaria que impele o verrogari está confessada nas suas palavras: é o ódio, a baixeza de sentimentos, a maldade com que conspurca um torneio festivo. Em seu linguajar que não me atrevo a repetir, ele insulta a ilustre raça élfica, tão bem representada nesta corte. Insulta o sexo feminino, e nele a noiva, que assiste aos jogos. Acima de tudo, insulta a vida! Sim, a vida, que este torneio deveria celebrar... porque não nos esqueçamos que todos estamos aqui, ou pelo menos deveríamos estar, para comemorar as núpcias reais, e não para manchar com o luto uma ocasião festiva. Sangue e morte fazem parte da batalha, sim; mas uma arena não é um campo de batalha, e sim um palco onde os bravos e puros exibem sua perícia. O comportamento e as palavras deste homem são a maior afronta que já se viu desde que o infame Edy Ilson Carvalho aceitou suborno para fraudar os jogos de Futebólia! Sua própria presença, repito, é um insulto às festividades, aos noivos, e portanto ao próprio reino!

O terreno estava preparado. Adam continuou com a acusação.

— Os crimes de Luntor foram sua crueldade e completo desdém com os principios deste torneio. Propositadamente, ele aleijou uma oponente derrotada. Era óbvio que Esliel não tinha mais condições de lutar, e o fez não por acidente, como era possível que acontecesse no calor da batalha, mas deliberadamente, após um discurso no qual anunciou o que ia fazer. Imaginem se todos os competidores resolvessem agir como Luntor e aleijar ou desfigurar seus oponentes! O que se tornaria esse torneio? Por acaso aquela brutalidade gratuita foi em homenagem ao noivado real? É claro que não. Ele a atacou por motivos pessoais, simplesmente porque ela não era humana... — disse o cavaleiro, dirigindo-se em seguida ao próprio verrogari: —Muitos aqui não são humanos, inclusive nosso anfitrião, Harbeus. Por acaso você pretende aleijá-los também?

Harbeus, que parecia estar desanimado desde o diagnóstico de Lyla, recobrou o ânimo após os dois discursos. Mas o julgamento foi interrompido: a porta abriu-se bruscamente e por ela entrou o sacerdote Maryk, afobado.

— Desculpem-me pelo atraso. Estava cuidando de Esliel. Harbeus, vossa santidade poderia me passar o que ocorreu até o presente momento? — pediu.

O pequenino retomou rapidamente o que fora dito por todos. Maryk coçou o queixo e disse:

— Levando em conta que a razão de estarmos aqui reunidos nesta noite fria foi o ataque do participante Luntor contra a participante Esliel, creio que o estado de saúde dela possa interessar e vir a ser importante para nossas resoluções. Não pretendo comentar a violência do golpe. Lutas são sempre perigosas e imprevisíveis. Nao é possível saber para onde nossos corações serão levados nos momentos de batalha e acidentes são sempre um risco. Curiosamente, porém, parece que sua ferida é muito mais arcana e espiritual do que física. Fiz o que pude para tentar sanar os maiores danos, mas milagre algum tem efeito regenerativo sobre o corpo daquela menina. Uma mancha negra surgiu no ponto em que Luntor a atingiu, mas não consigui identificar a origem deste mal ainda. A princípio eu julgaria que haveria algo de errado na arma de Luntor por conta destas impressões que se revelam no corpo de Esliel, mas os
resultados aqui apresentados refutam minha tese. Respondeirei a perguntas de qualquer um de vocês agora. E que tenhamos a sabedoria necessária para decidir o que é certo fazer daqui por diante.

Enquanto Maryk falava, um guarda entrou silenciosamente no recinto e entregou a Lyla um pequeno pedaço de papel.

7.10.05

Dia 1 - Makalaus x Zelur

Makalaus e Zelur foram os últimos. No centro da arena eles se posicionaram e começou o combate! Makalaus foi pego de supresa por uma bola de fogo que partiu em sua direção. O ataque passou próximo, mas não atingiu o mago, que, sem mostrar qualquer expressão, preparou sua resposta.

Todos esperavam um raio como o que fora dirigido contra Luntor pouco antes. Mas o que se viu foi um mago escorregando no chão molhado e caindo no chão, incapaz de realizar qualquer ataque. Zelur aproveitou-se para atacar com dois raios elétricos em seguida; errou o primeiro, mas o segundo explodiu em cheio no peito de Makalaus, que ainda se levantava do chão.

A magia rasgou o manto negro de Makalaus, revelando parte de suas queimaduras. Ferido, mas não vencido, ele reagiu com um raio que passou bem perto do seu oponente. Se não o atingiu, pelo menos assustou: Zelur tomou seu cajado e partiu com ele para um combate corpo-a-corpo.

Mas Makalaus não parecia interessado neste tipo de duelo. Lançou outro raio, que acertou Zelur, fazendo-o recuar. Mais um raio partiu... e desta vez a força do golpe foi estrondosa. Uma chuva de lampejos púrpuras se espalhou pela arena, queimando até mesmo algumas bandeiras e apagando algumas tochas, que caíram no chão.

Na tentativa de se proteger do impacto, Zalur se defendeu com os seus braços, cobrindo o rosto e o peito. Mesmo assim, e protegendo seu rosto com os braços, o humano foi atirado com força contra um dos muros de proteção da arena, caindo completamente inconsciente no chão. Enquanto ele era atendido por Harbeus, que constatava que a vida ainda pulsava em seu corpo, Azazel caminhou até Makalaus, anunciando sua vitória.

A multidão, que ficara em silêncio durante a luta, vendo magias de diferentes cores serem lançadas, gritou em uma explosão de entusiasmo. Todos, inclusive o rei de Portis e o príncipe de Calco, aplaudiram a demonstração de habilidade dada por Makalaus em seu último raio.

A noite terminara. Além de Adam e Luntor, a humana Lucy vencera o anão Paeter; e o pequenino Refiero, sobre o qual todos depositavam desconfianças, derrotara de forma surpreendente o humano Calig. Contudo, apesar de todas as lutas terem sido emocionantes, os assuntos que dominavam as arquibancadas e depois as ruas de Runa eram a luta de Adam e a derrota de Esliel. Se Adam era considerado por quase todos como o grande herói do povo que surgia no torneio, o mesmo não se podia dizer sobre as opiniões acerca do destino de Luntor. Todos tinham uma opinião, mas elas eram divergentes.

No torneio de magos, após a longa luta de Lyla contra Solom, vencida pela elfa dourada, a humana Ferlim, apesar de disparar os poderosos dardos de gelo, perdeu para as poderosas bolas de fogo de Oiuri; Giliel, um elfo das florestas, superou Glanir; e a vitória de Makalaus encerrou o primeiro dia de confrontos.

O cair da noite levou os competidores de volta à ala onde estavam hospedados. Mas eu, Adam e Cícero fomos convocados a nos juntar a Lyla e Azazel para o julgamento de Luntor.

Dia 1 - Lyla x Solom

Voltamos à arena, onde estava para começar o torneio de magia. Por motivos de segurança, o evento que deveria acontecer no subsolo foi transferido para a arena principal, para a alegria do Rei de Portis, insatisfeito com a idéia de os magos duelarem no subsolo, longe do palco central.

Já era noite e tochas iluminavam toda a área do combate. Ninguém havia abandonado a arquibancada, aguardando para ver os desdobramentos do torneio, especialmente depois dos fatos ocorridos à tarde. A terra úmida pela chuva que caíra nas horas anteriores já começava a secar e enfim as lutas tiveram início.

Lyla e Solom caminharam até o centro da arena e começaram a luta. Lyla pareceu se distrair um pouco com tudo aquilo ao redor e foi supreendida por um raio elétrico, que passou a alguma distância de seu corpo. Retribuiu na mesma moeda — e também errou.

— Parece que nem experiência nem juventude garante bons ataques, não é? Qualquer um pode ganhar ou se ferir seriamente aqui. Por que você não deixa de lutar agora? Desista! Acredito que este lugar é perigoso demais para uma jovem elfa como você. Fique certa de que se vencer, dedicarei minha vitória a ti! — disse Solom.

— Prefiro perder honradamente que desistir de meus objetivos. E, se depender do público, acho que quem deveria desistir seria você — ela respondeu.

Creio que estavam tentando fazer alguma coisa um contra o outro no meio destas palavras, mas meus parcos conhecimentos mágicos não me permitem garantir. Na verdade, o que se viu dali em diante foi uma seqüência de erros e magias desconcertadas. Tirando uma bola de fogo que quase levou Lyla ao chão, nenhum golpe foi capaz de ferir seriamente os lutadores.

O público mantinha-se atento ao espetáculo pircotécnico que os lutadores produziam na arena. Até que o inevitável aconteceu. Tanto Lyla quanto Solom perderam toda sua energia mágica e tiveram que partir para um confronto físico, com seus cajados.

Ainda que aparentemente Solom estivesse levando alguma vantagem, uma série de erros começou a minar suas forças. Lyla, com golpes fracos mas bem acertados, foi derrubando seu oponente até que, quando já estava com muitos hematomas e um pequeno sangramento na face, ele optou por desistir da luta. Lyla venceu e passa para a fase seguinte, ainda que sem ter recebido uma consagração como a de Adam.

Dia 1 - Investigação

Seguimos Luntor a uma distância segura. Vimos quando ele entrou no quarto para o qual havia sido levado o seu companheiro derrotado por Adam e em seguida saiu, encontrando-se com um outro. À distância, era difícil ouvir alguma coisa, mas pude ler os lábios de Luntor, que dizia ao outro verrogari:

— Pouco me importa o que você tem a me dizer. Não quero ouvir! Deixe-me para me dizer após sairmos deste reino maldito, com a espada em nossas mãos. Acredito que dei uma bela lição naquela mestiça. Agora nao me criem mais problemas com estas criaturas nojentas que infestam este canto do mundo.

— Veja só — cochichou Cícero ao meu ouvido. — Com seu amigo derrotado, ele parece mais um valentão sem saber o que fazer. Deve estar estressado pelos gestos que faz com seu companheiro. Vamos embora daqui, Cambaxirra. Creio que ele deve estar tremendo com a possibilidade de ter de enfrentar Adam, que até o momento teve uma atuação impecável, honrada e conta com o apoio do público. Temos agora que nos certificar de que Luntor não use métodos ilícitos. Vamos nos posicionar em volta da arena e aguardar de prontidão, no caso de Adam precisar de nós.

— Vá você, Cícero. Vou ficar mais um pouco e ver se descubro alguma coisa — respondi, e agucei os sentidos na tentativa de encontrar algo suspeito.

— Espere — ele recuou. — Tenho uma idéia: como você quer pegá-los com a mão na massa, vou passar por eles e chamar a atenção, talvez façam algo ao ver-me. Fique aqui com os olhos e ouvidos atentos!.

Escondendo a montante sob o manto, ele caminhou normalmente na direção dos dois. Quando se aproximava do grupo, um dos homens com quem Luntor conversava disse:

— Ei, aquele não é o amigo do rato cantador?

Luntor fez um sinal positivo com a cabeça e respondeu:

— Deixe-o. Já temos nossos próprios problemas. Vou me recolher, pois soube que à noite teremos um julgamento para avaliar minha conduta. Devo preparar minha defesa paa ser ouvida contra estes boçais. Um desperdício que será pago pela espada. Ordeno a vocês que façam o mesmo. Só assim ficarão longe de maiores problemas.

Saiu e caminhou em direção à porta ao lado, aparentemente o seu aposento, e fechou a porta atrás de si. O outro verrogari fez o mesmo, no quarto onde estava o combatente derrotado. Eu ia deixando também os aposentos verrogaris para me juntar a Adam e Cícero, mas no meio do caminho mudei de idéia. Voltei, procurei os guerreiros eliminados e disse a eles:

— Podem arrumar as malas e partir... o conselho já descobriu a trapaça do seu chefe e ele será eliminado.

Depois do blefe, virei as costas e fui embora, sem colher qualquer reação além de um olhar de ódio.

Dia 1 - Na arena

Maryk olhou para Adam e disse:

— O caso dela é grave. Se não agir rápido, creio que a perderemos. Acredito que ela teve a coluna quebrada, além de algum ferimento interno. Ainda que as almas tombadas em combate sejam recebidas por Crezir, não posso deixar que isso gere um conflito com os desígnios de Crisagom para este dia. Sendo assim, dou a esta guerreira uma chance a
mais de provar seu valor nos campos de batalha.

Enquanto pronunciava estas palavras, uma luz verde nasceu entre suas mãos e o corpo de Esliel, e aparentemente penetrou em sua carne. Ela, que estava inconsciente e sem respirar, abriu os olhos e soltou um grito de dor.

— Senhor, pude ver que ela pode sobreviver... mas e sua coluna? Os atos cruéis daquele louco não podem prevalecer, sua deusa não pode curá-la? Crezir parece ouvi-lo com muito cuidado — respondeu o paladino em voz muito baixa e desanimada, realmente preocupado.

Maryk então virou-se para Azazel:

— Preciso que você me consiga com urgência um molhe de ervas de Suery, aquela que utilizamos para cremar os mortos nos campos de atalha, uma adaga de prata de lâmina virgem, um coelho e um cálice de ouro. Creio que não deva ser difícil encontrar estes itens aqui em Runa. Vá, Azazel! Sei que isso pode lhe parecer estranho, mas a vida desta meio-elfa está em suas mãos agora!

— Vou buscar os ítens prontamente grande Maryk-Ah. Afinal, esta pobre é apenas uma vítima do destino cruel que seus pais lhe legaram. E isto posso compreender perfeitamente — respondeu o jovem.

Em seguida, o sacerdote olhou para Lyla.

— Por favor, vá chamar Harbeus. Preciso que ele seja o juiz da próxima luta. O torneio deve continuar. Ao fim do dia, decidiremos as consequências que este incidente terá — disse, e suas ordens foram prontamente obedecidas.

Mas o clima tenso permanecia.

— Deixar que os fiscais resolvam? Esses juízes são todos incompetentes. Se eles previram punições para pessoas que cometem atrocidades, por que não previram a solução para os que as sofreriam? Como podem ser tão estúpidos? Deveriam saber que isso poderia acontecer e já ter os materiais prontos — disse Makalaus a Cícero, que, porém, não pretendia continuar a discussão.

Azazel, por outro lado, parecia irritado com a intromissão do mago e seu ataque frustrado a Luntor.

— Tais confusões não serão toleradas. Mesmo em momento tão crítico. Se realmente lhe importa o destino desta jovem, venha comigo, preciso com urgência de alguns itens para restabelecer a sua saúde, mas sou de fora da cidade. Se conhece o mercado local, me ajude a encontrá-los pois não há muito tempo — disse.

— Não fui eu que criei a confusão, e sim o homem que está saindo ileso ali na frente. Mas não vou me ater ao descuido da organização do torneio. Irei ajudá-lo a procurar materiais. É melhor que eu vá também para que não ocorra mais nenhuma estupidez por aqui — respondeu Makalaus.

Enquanto os dois saíam, chamei Cícero à parte e compartilhei com ele minhas desconfianças.

— Você não achou estranho o modo como ele encerrou a luta? Temo que ele possa estar usando algum artifício que passou despercebido pelos juízes. Se for o caso, nosso amigo Adam corre grande risco. Que tal investigarmos?

— Não acredito em trapaça, meu amigo, apenas na crueldade e covardia estampadas por ele... Mas podemos ficar de olhos abertos, pois esse sujeito é perigoso. Diga, o que planeja fazer? Temos que ficar por perto e nos certificarmos de que isso não se repita, o que tem em mente?

— Vamos segui-lo, Cícero. Se houver alguma trapaça, ele vai se revelar quando estiver novamente com seus amigos — respondi.

Dia 1 - Luntor x Esliel

Todos ficaram ávidos, à espera da próxima luta. Esliel, a meio-elfa, apresentou-se na arena, juntamente com Luntor, e tomou a sua própria espada como arma, enquanto Luntor escolhia uma maça de armas. Talvez para imitar Adam, ela fez uma prece, no que era observada por Luntor.

O combate começou e Esliel se mostrou habilidosa com sua ama, assim como Luntor. Diversos golpes foram trocados e bloqueados. A luta se estendeu por alguns minutos, até que Luntor falou baixo, mas podendo ser ouvido pelos que, como eu, prestavam maior atenção ao combate:

— Acabou o espetáculo.

O verrogari se mostrou então um fabuloso guerreiro, como se até ali estivesse apenas brincando. Ainda que Esliel fosse hábil, ela não conseguia acompanhar o ritmo. Após alguns golpes bem colocados, caiu no chão. Fragilizada, ela tentou se levantar, mas foi impedida pelo pé de Luntor, que desceu pesadamente sobre suas costas. Então, ele dirigiu-se ao público, gritando:

— Homens e mulheres! Venho atá aqui para lhes demonstrar uma parcela do que Verrogar tem a entregar ao mundo! Ao longo de séculos, nós, humanos, nos vimos sendo oprimidos por uma corja de seres inferiores. Seres que por meios não naturais sobrevivem por mais tempo que nós, manipulando nossos corações e mentes! Seres que corrompem a santidade da essência humana, produzindo lixos mestiços, como essa cadela que está sob meus pés. Desde que chegamos aqui, calei-me contra toda infâmia que sofremos. Basta! Chega de mestiços que destróem nosso sangue e contaminam as gerações futuras. Que ladram escarnecendo da grandeza de nosso próspero e nascente império.

Poderia até ser uma consciência. Mas tive a certeza absoluta, naquele momento, de que ele despejava sua ira sobre mim naquela frase. Mas o discurso continuou:

— Isso termina agora. Pelas regras deste torneio, não posso livrar o mundo definitivamente deste tipo de peste, mas ofereço a ela uma lição!

Antes que qualquer um pudesse reagir, Luntor levantou sua maça de armas e a enterrou na coluna de Esliel, que soltou um último grito antes de desmaiar.

Makalaus, um dos magos inscritos no torneio e que assistia a tudo perto de nós, não suportou tamanha infâmia e lançou um raio mágico na direção do verrogari. Sem sucesso: uma explosão de energia simplesmente atingiu o chão. Adam, por sua vez, foi o primeiro a correr na direção de Esliel para verificar se ainda estava viva. Enquanto isso, Cícero tentava conter Makalaus:

— Acalme-se, bardo! Poupe suas energias, pois vai precisar delas. Vamos deixar as coisas serem resolvidas pelos fiscais, ou isso poderá prejudicá-lo.

Em seguida, virando-se para o verrogari, acusou-o:

— Você é uma vergonha para todos aqui, covarde! Guarde seus pensamentos impuros para gente da sua laia e meta-se com gente do seu tamanho!

Mas Luntor deixava a arena, olhando para os dois com seu ar desdenhoso. E havia mais com que se preocupar: quando Marik chegou ao centro da arena, Adam deu-lhe a notícia. A coluna de Esliel fora partida pelo golpe. Azazel, Lyla e Adam ajudaram Marik a remover a guerreira ferida. O público acompanhava a tudo com silêncio e apreensão.

6.10.05

Dia 1 - Adam x Sérbios

Adam e Sérbios caminharam até o centro da arena, onde fora posta uma mesa com praticamente todas as armas conhecidas em Tagmar. Pediram-lhes que escolhessem com quais desejavam lutar, e Sérbios, com desdém, respondeu:
— Que esse moleque escolha. Afinal, ele é quem vai perder mesmo.

Confesso hoje que a confiança do verrogari abalou um pouco a minha fé em Adam. Mas nem mesmo a narração fantástica da sua aventura no pântano me permitia supor o que veria naquela manhã. Assim, eu e Cícero, que o acompanhávamos, o vimos observar cuidadosamente o seu adversário, que trajava uma cota de malha parcial, e optar por uma pesada maça.

— Que vença o melhor, eu não gostaria de outra maneira — limitou-se a dizer, enquanto experimentava a arma, dando golpes no ar. Em seguida, apoiou a maça no chão e, ajoelhando-se, fez uma prece.

Sem o menor respeito, Sérbios, que escolhera uma espada, apontou-a para Adam e desafiou-o:

— Em nome de Crezir, eu digo que esta vitória será uma homenagem do deus das mortes em batalhas a Verrogar! Levante-se e venha lutar!

Maryk chamou então os competidores ao centro da arena, pediu que eles dessem dez passos para trás e anunciou o início da luta. Adam, mais rápido em combate, conseguiu levar vantagem. Ele atacou de forma supreendente, atingindo o adversário no abdome. Sérbius tentou revidar o ataque, mas não conseguiu.

— De que adianta a força sem honra e a vitória sem compaixão? Neste estado elas servem somente para produzir tiranos — disse Adam, procurando comprimir Sérbius com o escudo. A estratégia foi perfeita. Com o escudo, desequilibrou o oponente, tirando-o de sua base de sustentação e atacando-o em seguida.

Sérbios ainda tentou bloquear o ataque de Adam com a espada, mas sua arma se quebrou com a força do golpe. Um último grito saiu de seus pulmões antes que o ataque os deixasse completamente vazios:

— NÃÃÃÃOOOOOO!

O mundo todo pareceu emudecer-se para assistir àquele golpe. Após quebrar a espada de Sérbios, Adam atacou de baixo para cima, batendo contra o abdome e as costelas do verrogari, suspendendo-o do chão e atirando-o para trás, inconsciente. Maryk verificou o estado do derrotado e voltou ao centro da arena para declarar Adam vencedor.

Cícero não se conteve. Correu para abraçar Adam, dizendo-lhe:

— Brilhante, meu caro Adam, você provou que a sabedoria é mais poderosa que a força... espero que não seja um tipo de sorte de principiante, agora aproveite o reconhecimento da multidão e espalhe um pouco de alegria para essas pessoas. Conte comigo e Cambaxirra para qualquer coisa, estamos sempre por perto. Mesmo que não esteja nos vendo, estamos sempre cuidando para que não ocorram surpresas desagradáveis. Lembre-se que não está só no torneio e cuidado com as pessoas. Você parece ter uma vontade de ajudar todos e deixa um espaço para aproximação, o que pode ser perigoso, pois muitos aqui podem usar isso para se aproximar e golpeá-lo pelas costas. Muito cuidado e mantenha-se atento!

— Amigo, eu luto bem quando sei que tenho vocês e não preciso vigiar minhas costas... Agora vamos festejar a nossa vitória! — ele respondeu.

O público simplesmente não podia acreditar no que acabara de ver. Em meio a gritos e lágrimas, Adam se transformava em herói para todos ali, sendo apaludido até mesmo por alguns de seus oponentes, que vieram felicitar também a mim e a Cícero.

Eu ainda me recobrava do susto que levei ao ver o golpe perfeito de Adam. Para aproveitar a atenção de todos sobre ele, lancei um grito de guerra, prontamente acompanhado pelo público, que o fez ecoar na arena:

— Uh! Terror! O Adam é matador!

Até o príncipe de Calco fez questão de vir até Adam, acompanhado de Farcor, e lhe dizer:

— Parabéns, meu rapaz! Você, com suas palavras provou ter sabedoria; e com sua arma, a habilidade de um verdadeiro cavaleiro. Parabéns, parabéns, não consigo me cansar de dizer!

— Suas palavras valem mais que ouro para mim. Que todos os deuses abençoem seu reino e seu casamento — ele agradeceu, com uma reverência, para depois acenar e retribuir aos aplausos da multidão, que pareciam nunca mais terminar.

Se algum dia eu vi o nascimento de um herói, foi naquela manhã, em Runa. Mal podia imaginar os terríveis males que o aguardavam.

O Torneio - Dia 1

Poucos foram os dias que nasceram tão belos em Runa quando a manhã que marcou a abertura do torneio. O céu estava claro, sem qualquer nuvem que pudesse ameaçar o espetáculo. Logo cedo uma multidão se formou em frente ao coliseu da cidade, construído em tempos em que a magia ainda não tinha tanta influência. Todos disputavam um lugar para ver as lutas que se estenderiam ao longo daquele dia. Bandeiras tremulavam por todos os cantos dando um colorido diferente ao céu, assim como camponeses e homens da floresta aproveitavam para negociar seus produtos.

Se nas ruas a ansiedade pelo início dos festejos se mostrava, o mesmo poderia ser dito do interior da ala onde repousavam os participantes. Assim que o sol nasceu, os sacerdotes Harbeus, Maryk e Azazel chamaram todos os
participantes para lhes explicar a dinâmica do funcionamento da nova fase do torneio. Harbeus tomou a palavra e disse:

— Competidores! Quero parabenizá-los por terem chegado até aqui. Saibam que estar entre os 16 competidores finalistas já é uma vitória! Agora será ainda mais difícil continuar nesta competição e, por isso, acredito que apenas os mais preparados entre vós conseguirão chegar à final. Organizamos as lutas do seguinte modo: cada etapa durará um dia, ou seja, hoje teremos um total de quatro lutas entre guerreiros e mais quatro entre magos. Amanhã, teremos mais duas, que apontarão quem estará na grande final. Para que todos, e em especial o público e os noivos, possam assistir às lutas, elas não serão realizadas simultaneamente, mas sim em seqüência. Boa sorte a todos! Que Crisagom guie seus corações! Agora, partam para o anfiteatro! A glória os espera!

Dito isso, os três se retiraram da ala e seguiram para o anfiteatro. Os demais competidores foram orientados a seguir para lá também. Nas ruas próximas, eles foram recebidos com festas. Flores eram jogadas das janelas sobre eles enquanto passam e todos entraram no coliseu como heróis, sendo levados para o centro da arena, onde foram apresentados e saudados pelo público.

Os reis de Portis e Calco vieram cumprimentá-los, e após esta formalidade, todos saudaram o casal de noivos, que assistia à apresentação de uma bancada decorada com os mais belos e coloridos tecidos. E as lutas começaram: Adam seria o primeiro a lutar, enfrentando Sérbius, de Verrogar.

28.9.05

O Torneio - Adam e o guardião

Lancei a tocha aos pés da estátua para iluminá-la e tomei o escudo com a mão livre. Em seguida aproximei-me devagar da bandeira, posicionando o escudo para proteger-me de um possível golpe da espada da estátua.

"Nunca se sabe...", pensei.

Ao retirar a bandeira das mãos da estátua, fui surpreendido por um forte golpe no escudo, que me projetou para trás. Deixei cair a bandeira para não ter que soltar a espada. A estátua, de pedra esbranquiçada, com seus quase dois metros de altura, que antes era imóvel, agora se movia com uma velocidade impresionante, preparando-se para desferir outro golpe.

Recuperando-me do susto (e da pancada), rolei pelo chão para não ser esmagado. Ainda de joelhos, apanhei a bandeira do chão, guardei-a no cinto e então me levantei, preparado para me defender de mais um golpe.

Desviei-me de dois golpes, contra-atacando para mantê-la a uma distância segura, até começar a sentir a umidade nos meus pés. Lancei um ataque vigoroso, fazendo o som do metal de minha espada se chocando contra a pedra se espalhar por toda a floresta.

Nenhum treinamento com bonecos de palha poderia se comparar aquela situação. Era difícil segurar a espada nas mãos, pela dor nos dedos e a vibração do metal, mas mantive a firmeza. O golpe, de tão forte, arrancou uma grande lasca de pedra do peito da estátua. Ela, por sua vez, tentou mais uma vez me ferir, sua espada de pedra pasando rente às minhas costas.

Com mais alguns passos para trás, a água invadia minhas botas e molhava-me as calças. Ataquei-a outra vez; porém, em resposta sofri um golpe nas costelas, que por alguns instantes deixou-me sem ar.

— Deixe-me em paz, criatura maldita! — gritei, reunindo todas as minhas forças no que poderia ser um último ataque. O golpe atingiu com precisão a fenda já aberta e partiu a criatura de pedra, que tombou, novamente desanimada. Ofegante e com dores e hematomas no corpo, constatei que vencera o guardião!

O problema era como sair dali. O caminho pelo qual tinha vindo estava bloqueado. Podia tentar nadar pelo lago, mas a escuridão impedia-me de ver muita coisa, e perigos poderiam estar ocultos naquelas águas lodosas.

"É... isso prova que sou melhor com a espada que com as idéias", concluí, enquanto recuperava o fôlego. Após um tempo, ergui-me e voltei à ilha em busca da tocha que ficara acesa no chão. Verifiquei meus ferimentos, conferi se a bandeira ainda estava presa em meu cinto e escolhi uma das pontes para seguir meu caminho.

Vi-me numa espécie de labirinto, com pontes, ilhas e caminhos que se bifurcavam, como que procurando me confundir. Mas reencontrei meu cavalo e, montando-o, encontrei a trilha de volta à entrada da floresta. Agradecido aos deuses, voltei para o acampamento.


Esta foi a história que Adam me contou... embora eu achasse que ele estava escondendo alguma coisa.

O Torneio - Adam e a floresta

Trash, o bárbaro a festa, partiu em cavalgada na direção das tochas, após ser saudado em resposta por alguns competidores, e eu, como outros competiudores, o segui. Conforme nos afastávamos de Runa, o terreno ia ficando mais
íngreme, levando à queda de seis competidores. Eu e Trash, contudo, conseguimos driblar as dificuldades do terreno e, ainda que sem demonstrar maestria no manejo de animais, seguimos firmemente, subindo os caminhos tortuosos da Cordilheira da Navalha.

Após algum tempo de galope, todos chegamos às margens de uma floresta, onde o caminho das tochas terminava. Naquele lugar, era possível observar uma clareira, que servia de entrada para a mata. Tomei o caminho da direita, julgando que as bandeiras não deveriam estar nos caminhos mais óbvios. Segui preocupado com duas coisas: o que seriam o tais guardiões e o que os demais competidores seriam capazes de fazer para vencer a disputa. Assim, avancei atento à escuridão à minha frente mas não sem olhar para trás de vez em quando. Três competidores me seguiam.

Mais à frente, vi algumas tochas acesas, com uma placa ao lado, que dizia: "para não se perderem". Havia uma nova bifurcação na trilha, com um caminho para a direita e outro para a esquerda. Ambos pareciam em bom estado de conservação, sendo impossível dizer qual o mais usado.

Peguei uma das tochas e optei mais uma vez pelo caminho da direita. O caminho foi ficando cada vez mais fechado e frio. O som e as picadas de mosquitos começavam a fazer parte da paisagem, assim como a névoa que aos poucos cobria as árvores ao redor, dando a elas um aspecto de criaturas ameaçadoras e retorcidas, que se inclinavam sobre os que se atreviam a passar por elas.

Após cavalgar por aproximadamente 15 minutos nestas condições, fazendo uma leve curva para a esquerda, surgiu uma nova variação no caminho. Além da trilha que seguia em frente, apareceu uma outra, perpendicular a ela, à esquerda. Tentei, sem sucesso, descobrir pegadas das pessoas que colocaram as bandeiras. Mas ouvi sons de galopes, bem como vozes discretas vindos da trilha da esquerda.

Segui pela direita e comecei a ouvir, após aguns minutos, sons de cavalos, atrás de mim. Contudo, eles pareciam estar relativamente distantes. Após mais alguns minustos, a trilha levou-me à beira de um lago. Era impossível enxergar muita coisa ao redor. Mas a vegetação, o cheiro de mangue e os barulhos de sapos, grilos e a quantidade enorme de mosquistos indicavam que, em verdade, aquilo deveria ser parte de um pântano.

A trilha seguia margeando o lago, tornando-se cada vez mais úmida. As patas do cavalo já afundavam alguns centímetros na lama, mas mesmo assim continuei por aquele caminho. Um pouco mais à frente, consegui ver uma ponte, que avançava para dentro do lago.

O lugar parecia inóspito demais para fazer parte do torneio, mas como já estava ali prossegui um pouco mais. Olhei então ao redor, observando o ambiente ameaçador, e orei em voz baixa: Crizagom, guie os meus caminhos para a vitória. Isso se os mosquitos daqui não sugarem todo o meu sangue...

Matei mais um deles que picava o meu rosto e segui devagar pela ponte. Quando me aproximava do meio, percebi um ruído esstranho, como se as madeiras estivessem para ceder. Cuidadosamente, desci do cavalo, porém já era tarde demais para voltar. O estalo seco de um dos pilares do lado direito da ponte a fez inclinar-se, afundando em parte. O único caminho possível era ir em frente.

Com cuidado, prossegui, mas aos poucos novas partes da construção foram cedendo, ao ponto que correr foi a única
saída para não cair na água. Por sorte, quando a construção desabou definitivamente, já estava bem próximo a uma ilhota, tendo como prejuízo apenas a calça completamente suja de lama.

Na ilhota, pude ver algumas árvores, parecidas com as que compõem a floresta, além de outras três pontes, que deixavam a ilha. No meio da neblina e com ajuda de minha tocha, avistei um pequeno ponto vermelho, tremulando. Aproximando-me mais um pouco, pude reconhecer facilmente o objeto. Era uma bandeira!

Ela fora posta na mão esquerda de uma estátua de pedra de aparência humana, que segurava em sua outra mào uma espada também de pedra.

O Torneio

Enquanto isso, magos e guerreiros disputavam a fase preliminar do torneio. Mas só no dia seguinte fui encontrar Adam novamente. Ele era um dos oito bravos que haviam passado pela primeira prova, e lutaria com Sérbios, um guerreiro verogari de cerca de 18 anos; Esliel, uma meia-elfa de aparência graciosa e de sorriso carismático;
Harbeus, o verrogari mais velho e que pusera fim à briga no salão durante o banquete; Lucy, uma humana que parecia próxima dos seus 20 anos, com cabelos louros e semicacheados; Paeter, um anão que carregava sempre consigo um machado de guerra, além de outros dois pequenos machados na cintura; Calig, um humano, o único de sandálias, com diferentes punhais no cinto; e por fim, Refiedro, um pequenino com seu gládio. Trash, o bárbaro, havia sido derrotado.

As eles fora preparada uma gratificante recepção por sacerdotisas e sacerdotes de Lena. Além disso, os que assim desejaram tiveram uma noite inesquecível, forjando no prazer o corpo para as dores da batalha. Mesmo tratamento tiveram os oito magos: Lyla, uma elfa dourada de cabelos prateados; Ferlin, humana de cabelos negros que aparentava ter mais de 25 anos; Oiuri, jovem meia-elfa com expressão invocada no olhar; Zelur, humano, de ar meio abobalhado; Makalaus, mago humano, de aparência sombria e feia; Solom, humano um pouco mais velho que os demais, aparentando ter seus 40 anos; Giliel, elfo florestal; e Glanir, meio-elfo.

O dia foi livre para os competidores, que puderam conferir as chaves das lutas penduradas no são central e na entrada da ala. Foi possível também conhecer a arena de combate. A dos guerreiros, seria no coliseu da cidade. A das magos seria nos corredores e salões no subterranio desta edificação.

— Grande paladino! — saudei Adam, logo que o vi. — Não é nenhuma surpresa para mim vê-lo classificado para a fase final. Agora conte-me tudo o que lhe aconteceu e que inimigos derrotou para que eu possa cantar tudo numa balada ainda antes das próximas provas.

— Amigo bardo, como é bom ouvir sua voz! Quem dera outros também me chamassem de grande paladino... Mas onde está Cícero? Gostaria de vê-lo também. Bem, deixe-me contar como foi. Passar da primeira fase do torneio definitivamente não foi fácil e me valeu algumas cicatrizes.

E assim Adam me contou sua história...

20.9.05

Aloha

"Não se pode ganhar todas", pensava, caminhando pela ala do palácio. Então ouvi diversas vozes femininas conversando animadamente se aproximando de uma das portas laterais do prédio. Justamente uma das portas que ligava a ala a outras seções do palácio. Aproximei-me lenta e silenciosamente, tentando ouvir parte da conversa e assim descobrir alguma coisa sobre as mulheres antes de decidir se me apresentava a elas ou não.

Ouvi diversos comentários dispersos, vindos de vozes de mulheres, aparentemente jovens. Tudo não passava de um burburinho. Mas era possível distinguir algumas frases como:

— Será que eles são belos?

— Eu vi um deles na praça, sabe?

— Ssoube que tinham alguns de Verrogar também!

Uma voz mais alta, contudo, interrompeu a falação:

— Sacerdotisas e sacerdotes, silêncio! Sei que um corpo belo é uma dádiva. Mas deixemos a cegueira da paixão dos olhos para os seguidores de Plandis. Temos aqui a oportunidade de mosrtar aos guerreiros e guerreiras que o corpo não é apenas um instrumento de batalha. Que Lena nos guie nas artes do amor que nos foram ensinadas! Agora vamos. Temos preparativos ainda a fazer!

Vi que ali era o meu lugar. Toquei o meu pandeiro e entoei uma velha canção de amor:

"Hoje é festa lá no meu castelo
Venha de amarelo..."


Em seguida entrei no salão e anunciei:

— Tem toda a razão, nobre sacerdotisa! Permita que este servo do amor possa se juntar às celebrações.

— Um bardo! Perfeito! — exclamou a sacerdotisa, que acrescentou: — Junte-se a minhas meninas nos preparativos desta noite. Espero que a alegria e o amor possam trazer paz aos corações amargurados de batalhas!

Duas jovens sacerdotisas pegaram-me pelas mãos e me levaram a uma sala, para onde se dirigiam outras jovens, dizendo:

— Bardo, bardo, o que devemos fazer para ganhar a imortalidade em uma de suas canções?

— Digam-me primeiro seus nomes, meninas... e depois podem me mostrar as virtudes que com prazer cantarei nas mais delicadas baladas que já ouviram — respondi.
As duas moças, de braços dados comigo, riram das minhas palavras.

— Meu nome é Triony — respondeu a de cabelos castanhos cacheados.

— E o meu é Myril. Agora, quanto às nossas virtudes, venha até aqui — completou a outra.

Elas levaram-me até um aposento, cujo chão era forrado por almofadas e começaram a beijar-me, dando início um grande Aloha, o ritual de Lena, que dura toda uma noite. E eu só as interrompi para cantar em sua homenagem:

Triony, maravilhosa,
Cheia de encantos mil
Tryoni, como é formosa!
Só não é mais do que Myril!
Musas de tantas, tão lindas canções
Que encantam a toda gente
Se um bardo tiver os seus corações
Cantará eternamente...

Arien - II

Depois de contar a balada, passando o braço em torno dos ombros da jovem, completei:

— A moral dessa história, senhorita, é que nunca se deve desprezar aquilo que o amor nos oferece.

— Que história mais bela e triste — disse Arien, enquanto secava uma lágrima que corria de seus olhos, tão impressionada que nem pareceu perceber o abraço. — Ela é real?

— Todas as histórias são reais, cada uma do seu jeito — respondi, pondo a outra mão sobre o colo da elfa. Edla, porém, a retirou dali com um gesto firme e delicado, dizendo:

— Sua história foi realmente deveras impressionante, mas creio que ainda não temos nenhuma ninfa por aqui, não é verdade? Além disso, como você bem deve saber, os humanos lidam de forma diferente com o amor e estamos em um reino de humanos. Aliás, você já visitou alguma vila élfica, ou mesmo algum reino de domíno élfico, como Âmien?

Ela claramente tentava disfarçar que mudava o tom da conversa. Mas não desisti:

— Ora, a sua beleza não deve nada à das ninfas... sim, estive em Âmien uma vez. Tive o prazer de aprender algumas canções élficas. Foi numa bela aldeia, de casas construídas nos ramos das árvores, onde aprendi o costume dos elfos trovadores. Quando uma elfa quer ouvir uma canção de amor, ela beija o bardo — blefei, pois a verdade é que nunca estive em Âmien e não falo uma palavra sequer em élfico. Ainda assim, aproximei o meu rosto do seu.

— E uma meia-elfa, como faz? — riu-se Arien.

Minha resposta foi roubar-lhe um beijo.

— Assim!

Ela afastou o rosto, um pouco assustada, um pouco ruborizada. Meio sem jeto, disse:

- Eh... Cambaxirra... eu não sei se isso é uma boa idéia agora, mas...

E ficou parada, pensando, como se buscasse palavras que não vinham aos belos lábios.

— Por que não, Arien? A hora é perfeita... Veja, o Carro de Lena brilha sobre nossas cabeças — retruquei, apontando para uma estrela qualquer no céu.

— Bem, porque estamos no meio de um torneio e mesmo sob a égide do Carro de Lena, minha senhora, Lyla, a Sábia, pode reprovar este meu comportamento.Quando ela voltar, o que deve ser antes do Carro de Lena cair do firmamento, voltamos a este assunto — respondeu, envenrgonhada.

— Ela pode ser sábia, mas a maior sabedoria está no amor... vamos! — insisti, abraçando a jovem.

— Para onde? Eu devo esperar por Lyla aqui... — ela argumentou. Olhei em volta, procurando um lugar mais, digamos, à vontade, mas ela se desvencilhou de mim: — Calma! Depois conversamos melhor.

De fato, seria complicado encontrar algum lugar adequado por ali. Enquanto ela se afastava, comecei a assoviar uma canção, e fui andar pelas redondezas, procurando algo que fosse de interesse.

A Balada do Arco Encantado

"Havia num bosque em Plana um caçador que, ao contrário de muitos da sua profissão, sabia viver em harmonia com a natureza. Caçava apenas o necessário para sua sobrevivência; além disso, protegia as fêmeas grávidas e os filhotes. Cuidava dos animais que encontrava feridos e jamais se aproveitava das suas fraquezas.

Podia-se dizer que amava cada criatura do bosque. Tanto que um unicórnio, que lá também vivia, tornou-se seu maior amigo. Ensinou-lhe os caminhos secretos entre as árvores e a melhor forma de preservar o bosque para que este rendesse sempre mais. E chegou mesmo a presenteá-lo com um arco maravilhoso.

— Pelas virtudes neste arco depositadas, nenhuma flecha partida dele errará o seu alvo — disse.

O caçador, apear de filho de homens, era belo como um amanhecer no reino de Calco. Por isso, uma ninfa que habitava igualmente aquele bosque enamorou-se dele. Revelou seu desejo, mas não foi correspondida. O caçador queria apenas viver livre pelo bosque, correndo com os animais.

A ninfa não desistiu. Utilizou todas as suas artes de sedução. Mas em vão. Uma noite, quando o caçador se banhava num lago, surgiu de repente no meio das águas e agarrou-o. Mas foi repelida com tamanha brutalidade que a paixão se transformou em ódio. Cheia de despeito, fez uma prece a Ganis, sua mãe:

— Porque ele rejeitou meu coração, que morra por meio daquilo que mais ama.

No dia seguinte, o caçador seguia a trilha de uma corça. Julgou vê-la entre arbustos e disparou sua flecha precisa. Só ao ouvir o grito de dor percebeu que fora enganado por qualquer feitiço, e o que julgara ser uma corça era o unicórnio.

Tentou socorrê-lo, mas a flechada fora perfeita. A criatura jazia sem vida diante dele. Ensandecido, arrancou-lhe o chifre mágico e cravou-o em seu próprio peito, perfurando o coração e cumprindo assim a maldição da ninfa.

Dizem que o arco banhado pelo sangue ainda existe. Continua disparando flechadas perfeitas, mas enlouquece aquele que o usa.

A ninfa, por sua vez, ao ver que seu egoísmo provocara duas mortes, arrependeu-se e pediu a Ganis que desfizesse o mal. Mas nem os deuses podem mudar o que já foi escrito. Ela, então, chorou de tristeza, e tanto que transformou-se numa pedra de onde até hoje jorra água salgada como lágrimas, segundo me contaram."