O Julgamento - II
— Digníssimos senhores, acabo de receber um comunicado e sugiro que de agora em diante a reunião prossiga sem a presença do réu— pediu.
Luntor, que estivera em silêncio desde seu pronunciamento inicial, ouvindo a todos com atenção e visível contrariedade, mostrou toda a sua irritação e respondeu com voz furiosa:
— Mais um ultraje! Como nobre, não deveria ter de aceitar um circo grotesco como este. Mas serei benevolente e sensato. Caso os senhores me permitam, retiro-me agora para deixar que cochichem com maior paz de espírito.
Harbeus e Maryk acenaram com a cabeça, autorizando a saída de Luntor, que deixou a sala com paços pesados. Todos os olhos se voltaram então, para Lyla, que relia o recado. Finalmente, quebroiu o silêncio.
— Se esse verrogari não porta item mágico algum, não podemos deixar de pensar que algum de seus companheiros possa portar e que o tenha ajudado na batalha, mesmo à distância. Sugiro desclassificá-lo do torneio e examinarmos todos os pertences da comitiva verrogari.
Cícero, calado até então, foi o primeiro a se entusiasmar com a proposta. E disse:
— Senhores, se permitem expor minha opinião, o que está claro aqui é que toda comitiva verrogar está aqui por motivos pessoais e impuros, que nada têm a ver com o objetivo do torneio, e que vêm a macular a sua pureza. Assim, é certo que são passíveis de punição, assim que demonstrada sua culpa. O certo seria desclassificar o participante suspeito e mantê-lo no calabouço até tudo ser apurado, seja sua culpa ou inocência, dada a gravidade dos fatos. Proponho também que todos os verrogaris sejam interrogados com o máximo rigor por uma guarda ou equipe especial do palácio, pois ao que parece a vítima só será salva se descobrirmos a origem do ferimento, o que pode levar um tempo que não temos. Por isso, quanto antes eles falarem, melhor para ela.
Harbeus ouviu atentamente o que Lyla e Cícero disseram, e respondeu:
— O que Lyla afirma é uma verdade e Cícero apontou para uma possível solução para o caso em questão. Mas devemos ser cautelosos. Se levarmos isto adiante, com uma grande investigação, e não pudermos comprovar nenhuma de nossas suspeitas, podemos ser desacreditados. Para facilitar o andamento do torneio, mandei um de meus aprendizes ao templo de Crisagom da Terra Alta para chamar Lerfoat Instel, o maior sacerdote de Crisagom na região norte do mundo conhecido. Há muito ele se refugiou em um pequeno templo nas montanhas próximas a Runa. Se o que afeta a jovem Esliel supera a nossa capacidade de compreensão, tenho certeza de que ele poderá nos dar alguma resposta mais precisa. Em breve eles devem estar aqui, afinal, meu aprendiz já partiu há algumas horas, assim que soube das tentativas frustradas de Maryk de curar a meio-elfa. Ele poderá nos indicar o que houve. Porém, eu acredito que tenhamos em nossas mãos razões suficientes, como bem demonstrou Cambaxirra, para desclassificar Luntor deste Torneio. Meu voto vai neste sentido. O que você acha, Maryk?
O sacerdote ficou pensativo por alguns instantes. E, quando falou, foi para discordar de Harbeus.
— Se Luntor está ou não envolvido no mal mágico se abateu sobre Esliel, somente Lerfoat Instel poderá responder
com alguma certeza — argumentou. — Porém, ele não chegará agora, quando temos que tomar uma decisão. Para além disto, vejo o que ocorreu como um acidente normal de combate. Algo que, se não fosse por uma imposibilidade mágica, seria resolvido com qualquer um de nossos milagres. Pessoalmente, não considero que Luntor tenha honrado a intenção deste torneio, mas não tenho certeza de que desclassificá-lo seja a melhor saída. Mas apoio sua opinião, a princípio. Vamos chamá-lo de volta e anunciar a decisão. Peço agora que Adam, Cícero e Cambaxirra deixem o recinto.
Saímos e vimos quando Luntor entrou. Poucos minutos depois, nós ouvimos sair da sala o grito de "INFÂMIA!" na sua inconfundível voz grave e carregada de ódio. Alguns minutos depois, saiu de lá com passos firmes, em velocidade, rumo aos seus aposentos, tão irritado que sequer notou nossa presença.
Em seguida, Harbeus mandou nos chamar novamente. Em seu rosto estava estampada a tristeza. E disse a Adam:
— Por caminhos da injustiça, Crisagom reservou a você a missão de restabelecer o equilíbrio da justiça. Por motivos que escapam a qualquer explicação neste momento, Luntor competirá amanhã, lutando contra você. Espero que a honra guie sua espada e você possa fazer aquilo de que fomos incapazes nesta sala. Agora, tenho que ir ver Esliel. Espero que Lerfoat possa fazer também o que não conseguimos.
— Não consigo entender por que ele será autorizado a lutar, uma vez que tínhamos decidido o contrário. Mas não vou contestar a decisão dos senhores. Se esta é a palavra final, eu me despeço e vou me preparar para a luta — ele respondeu, depois de olhar fixamente os juízes por alguns segundos.
Saímos os três da sala, entre revoltados e estupefatos.
— Você será a espada da justiça, Adam — disse eu, tentando confortá-lo e animá-lo para o combate do dia seguinte. Não tenho certeza se me ouviu. Comentou alguma coisa sobre procurar o Duque do Lago Escarpado e afastou-se de nós, enquanto Cícero dizia:
— Amigos, ao que parece amanhã nossos problemas serão ainda maiores. Vou tentar tomar uma providência. Talvez pareça uma idiotice e peço que não me sigam, mas vou investigar mais a fundo o quanto o guerreiro é inocente...
Adam Pendragon: Humano, guerreiro
Azazel Troublebringer: Meio-elfo, sacerdote de Crezir
Cambaxirra: Meio-elfo, bardo
Cícero: Humano, ladrão
Iurin: Elfo florestal, rastreador
Lyla: Elfa dourada, maga
Makalaus: Humano, mago
Thiago: Despertando heróis
